Mangalarga Marchador

Seleção, marcha e morfologia

O que se seleciona numa raça de marcha: a diferença entre marcha picada, batida e de centro, o que a avaliação em pista não vê, e o que a biotecnologia reprodutiva resolve e não resolve.

O que se seleciona numa raça de marcha

Andamento e morfologia, e os dois juntos. Tratá-los como critérios separados é o engano de origem: estrutura que não sustenta o andamento não se sustenta como seleção. Um animal com marcha boa e aprumo ruim entrega marcha por poucos anos.

Picada, batida e de centro

A distinção é de dissociação — o momento em que os membros de um bípede deixam de se apoiar ao mesmo tempo.

Na marcha picada a dissociação é lateral, com menos deslocamento vertical, e por isso costuma ser descrita como mais confortável para o cavaleiro. Na batida a dissociação é diagonal, com tríplice apoio, e tende a produzir mais elevação e mais movimento. A marcha de centro é intermediária, com características das duas.

O que a avaliação vê, e o que ela não vê

A avaliação em pista mede o que se expressa naquele dia, naquele piso, com aquele cavaleiro.

Não mede constância ao longo do tempo, comportamento fora da pista, nem transmissibilidade — se o animal passa a característica adiante.

Reconhecer isso é o que separa seleção de colecionismo de premiação. Campeão não é sinônimo de bom reprodutor, e confundir os dois é um erro caro que o mercado repete há décadas.

Biotecnologia reprodutiva: o que resolve

A transferência de embrião permite mais de um produto por doadora por temporada e mantém a doadora em atividade em vez de gestante.

O que isso muda de fato: a decisão que mais determina o resultado de um programa deixa de ser o garanhão e passa a ser a escolha de doadoras. O esforço genético se concentra na linha materna, onde a variação disponível é maior e menos explorada.

O que isso não muda: erro de seleção multiplicado continua sendo erro, agora multiplicado. A técnica acelera o programa na direção em que ele já estava indo — inclusive quando a direção está errada.

Temperamento

É a característica menos padronizada e uma das mais determinantes do valor de uso. Tem componente hereditário e portanto é selecionável, mas não há método de avaliação com consenso comparável ao de morfologia.

Merece atenção própria porque é onde o interesse de quem compra e o critério de quem julga mais divergem: compra-se um animal para montar, e avalia-se um animal para ganhar pista.

Sobre este assunto, na prática

Textos de Júlio Vinícius Reis Almeida, publicados no site pessoal dele.

Perfil de Júlio Vinícius Reis Almeida