Sucessão em empresa familiar do agronegócio

O problema que ninguém agenda

Por que a sucessão no agronegócio é diferente da sucessão em empresa urbana, quais instrumentos existem e o que cada um resolve — e, sobretudo, o que não funciona.

O problema que ninguém agenda

A sucessão em empresa familiar rural raramente entra em pauta enquanto a geração fundadora está ativa. Não por descuido: enquanto quem fundou continua decidindo, o sistema funciona, e discutir sucessão é discutir a ausência de quem está presente.

O custo dessa postergação não aparece devagar. Aparece de uma vez, num inventário, com o negócio parado e as decisões suspensas.

O que torna o caso rural diferente

A terra não se divide como se divide capital. Uma fazenda partilhada entre herdeiros em frações ideais não se torna várias fazendas menores viáveis: torna-se uma propriedade em condomínio, em que nenhuma decisão de manejo se toma sem consenso. Em lavoura perene — cacau, café, citros — isso é especialmente grave, porque a decisão adiada de poda ou de renovação custa safras.

O ativo biológico não espera. Rebanho, lavoura e plantel exigem decisão em janela agronômica, não em prazo processual. Um inventário de dois anos não suspende dois anos de manejo: produz dois anos de manejo ruim.

O conhecimento operacional é tácito e não está escrito. Quem sabe qual talhão responde a qual manejo, qual matriz transmite qual característica, qual comprador paga melhor por qual lote, sabe de memória. Esse conhecimento é parte do valor da empresa e é o único ativo que desaparece por completo se a transição não for planejada.

Os instrumentos, e o que cada um resolve

A holding patrimonial rural concentra os imóveis numa pessoa jurídica e converte a herança de fração de terra em herança de cota social. Resolve o problema do condomínio indivisível. Não resolve o problema de governança: sócios que não se entendem continuam não se entendendo, agora com contrato social.

A doação com reserva de usufruto transfere a nua-propriedade em vida e mantém com o doador o uso e os frutos. Antecipa a partilha sem retirar o controle de quem fundou.

O acordo de sócios define o que o contrato social não define: como se decide, como se entra, como se sai e por qual preço. É o instrumento que mais evita litígio e o menos usado, porque exige que a família converse sobre desacordo antes de haver desacordo.

O conselho de família separa a conversa familiar da conversa societária. Não decide sobre o negócio; existe para resolver conflito antes que ele chegue à mesa em que se decide.

O protocolo familiar registra critério de entrada de herdeiro na empresa, política de distribuição e regra de conflito. Vale pelo consenso que documenta.

Esta página descreve instrumentos e não constitui orientação jurídica.

O que não funciona

Adiar até a doença. O planejamento feito sob urgência médica é feito pelas piores razões e nas piores condições de negociação.

Tratar sucessão como partilha. Dividir bem o patrimônio e não definir quem decide produz herdeiros iguais em cota e paralisados em gestão.

Presumir vocação. Filho de produtor não é necessariamente produtor. Forçar sucessor sem interesse produz gestão ruim e uma pessoa infeliz, e costuma custar mais que contratar gestão profissional.

Confundir sucessão patrimonial com sucessão de gestão. São duas transições, com calendários diferentes. Quem herda cota não precisa dirigir, e quem dirige não precisa herdar.

Sobre este assunto, na prática

Textos de José Geraldo Sousa de Almeida, publicados no site pessoal dele.

Perfil de José Geraldo Sousa de Almeida